http://www.scielo.br/pdf/ha/v10n21/20625.pdf
199 Sincretismo afro-brasileiro e resistência cultural
Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 10, n. 21, p. 199-219, jan./jun. 2004
Cibernética, ciborgues e ciberespaço...
CIBERNÉTICA, CIBORGUES E CIBERESPAÇO: NOTAS SOBRE AS
ORIGENS DA CIBERNÉTICA E SUA REINVENÇÃO CULTURAL
Joon Ho Kim
Universidade de São Paulo* – Brasil
Resumo: A teoria cibernética de Wiener, da década de 1940, originou pesquisas
e influenciou vários campos científicos, incluindo a antropologia. Atualmente, a
cibernética está praticamente esquecida como uma ciência, mas deixou importan-
tes resíduos para a cultura. Esses resíduos, dentre outros provenientes do discurso
técnico e cientifico, são meios criativos para as reavaliações do consenso social
acerca dos significados das coisas.
Resultados de um processo de reinvenção cultural, o ciborgue e o ciberespaço são
referências emblemáticas de uma nova ordem do real que projeta o sistema antigo
de interpretação da realidade sob novas formas, restringidas pelas dadas possi-
bilidades históricas e culturais de significação.
Palavras-chave: cibercultura, ciberespaço, cibernética, ciborgue.
Abstract: The Wiener’s cybernetics theory, from 1940’s, has inspired researches
and has influenced many scientific fields, including anthropology. Nowadays, the
cybernetics is almost forgotten as a science but it has left important residues for
the culture. These residues, amongst others from scientific and technical discourse,
are creative means for the revaluations of social consensus about the meanings
of things.
As results of cultural process of reinvention, the cyborg and the cyberspace are
emblematic references of a new order of real, which projects the old interpretational
system of reality in new forms, constrained by its given historical and cultural
possibilities of signification.
Keywords: cyberculture, cybernetics, cyberspace, cyborg.
*
Mestrando em Antropologia Social.200 Sérgio F. Ferretti
Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 10, n. 21, p. 199-219, jan./jun. 2004
Joo Ho Kim
A invenção da cibernética
Em 1948, o matemático Norbert Wiener publicou Cybernetics: or the
Control and Communication in the Animal and the Machine, livro que
apresenta as hipóteses e o corpo fundamental da cibernética, resultados de
vários anos de pesquisa e interação com pesquisadores de diversas áreas
científicas, incluindo as ciências sociais, representados, em especial, pelos
antropólogos Gregory Bateson e Margaret Mead. A idéia fundamental de-
senvolvida por Wiener com seus principais colaboradores, o fisiologista
Arturo Rosenblueth e o engenheiro Julian Bigelow, é a de que certas fun-
ções de controle e de processamento de informações semelhantes em
máquinas e seres vivos – e também, de alguma forma, na sociedade – são,
de fato, equivalentes e redutíveis aos mesmos modelos e mesmas leis ma-
temáticas. Ele entendia que a cibernética seria uma teoria das mensagens
mais ampla que a “teoria da transmissão de mensagens da engenharia elé-
trica”,
[…] um campo mais vasto que inclui não apenas o estudo da lingua-
gem mas também o estudo das mensagens como meios de dirigir a
maquinaria e a sociedade, o desenvolvimento de máquinas computa-
doras e outros autômatos […], certas reflexões acerca da psicologia
e do sistema nervoso, e uma nova teoria conjetural do método cien-
tífico. (Wiener, 1984, p. 15).
Wiener (1948, p. 19; 1984, p. 15) explica que ele e Rosenblueth criaram
um termo artificial para designar esse campo de pesquisa porque acredita-
vam que qualquer terminologia existente traria um viés indesejado ao seu
sentido. Assim, eles cunharam o termo cybernetics derivado do grego
kubernetes, palavra utilizada para denominar o piloto do barco ou timoneiro,
aquele que corrige constantemente o rumo do navio para compensar as
influências do vento e do movimento da água. Além do sentido de controle,
reforçado pela correspondência que kubernetes tem com o latim gubernator,
a máquina de leme utilizada em navios seria um dos mais antigos dispositivos
a incorporar os princípios estudados pela cibernética.
O campo que Wiener designa de “cibernética” teve início durante os
esforços relacionados com a II Grande Guerra, quando ele realizou pesquisas201 Sincretismo afro-brasileiro e resistência cultural
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com programação de máquinas computadoras e com mecanismos de con-
trole para artilharia antiaérea. Tanto em uma como em outra pesquisa,
Wiener engajou-se no que descreve como “estudo de um sistema elétrico-
mecânico que fosse desenhado para usurpar uma função especificamente
humana”: a “execução de um complicado padrão de cálculo” em um caso
e a “previsão do futuro”, no outro. A “previsão do futuro” a que Wiener se
refere, neste caso específico, é a capacidade de se prever a trajetória de
uma aeronave, a fim de que o projétil do canhão antiaéreo encontre-se com
o alvo em “algum momento do futuro” (Wiener, 1948, p. 11, 13, tradução
minha).
Em suas pesquisas sobre a artilharia aérea ele se interessou particular-
mente pelo princípio que a engenharia de controle denomina de feedback.
Basicamente, esse princípio consiste em realimentar o sistema com as infor-
mações sobre o próprio desempenho realizado a fim de compensar os des-
vios em relação ao desempenho desejado. Assim, nas máquinas controladas
por feedback, é indispensável a existência de um ou mais detectores e
monitores que façam papel de órgãos sensórios, de forma que as informa-
ções coletadas possam ser confrontadas com o padrão de desempenho
programado. A diferença entre o desempenho realizado e o esperado é
transformada na informação que o mecanismo de compensação utilizará
para trazer o desempenho futuro para valores mais próximos do padrão
esperado (Wiener, 1948, p. 13; 1984, p. 24).
Durante as pesquisas com mecanismos controlados por feedback,
Wiener notou que eles podiam apresentar uma oscilação anômala e crescen-
te, capaz de tornar o sistema incontrolável e levá-lo à pane.
1
Esse tipo de oscilação parecia atingir não só máquinas controladas por feedback, mas
também alguns seres humanos vitimados pela ataxia, deficiência que se
caracteriza pela perda de coordenação de movimentos musculares voluntá-
rios. Wiener e Rosenblueth notaram que, em alguns distúrbios neurológicos,
1
Um exemplo simples desse tipo de oscilação pode ser observado em um aquecedor controlado
por termostato. Nesse caso, o controle por feedback consiste basicamente na realimentação
do sistema com valores da temperatura do ambiente, medidos por meio de um sensor de calor,
que são confrontados com o padrão de temperatura programado na máquina. Assim, se o
termostato detectar que a temperatura está abaixo do desejado, acionará o aquecedor; se
detectar que está acima, irá desligá-lo. Esse tipo de controle permite que a temperatura de
um ambiente fique estável dentro de uma pequena zona de tolerância acima e abaixo da
temperatura desejada. Entretanto, desde que a estabilidade do sistema depende do bom
funcionamento do controle por feedback, um termostato defeituoso ou de má qualidade pode
resultar em violentas oscilações de temperatura (Wiener, 1948, p. 115).202 Sérgio F. Ferretti
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Joo Ho Kim
o portador de ataxia apresenta anomalias ligadas ao sentido proprioceptivo,
2
fazendo com que o atáxico, apesar do sistema muscular estar em condições
adequadas, seja incapaz de andar e mesmo de ficar de pé sem olhar para
as pernas ou ter distúrbios de coordenação nos quais seus movimentos
voluntários não passam de movimentos erráticos que “resultam apenas em
uma oscilação violenta e fútil”. As pesquisas em pacientes com ataxia de-
monstravam que bons músculos não eram suficientes para uma ação efetiva
e precisa: as informações do feedback fornecidas pelo sistema proprioceptivo,
combinadas com as provenientes de outros sentidos, são indispensáveis para
o sistema nervoso central produzir o estímulo adequado para o trabalho
muscular. E Wiener conclui: “Something quite similar is the case in
mechanical systems” (Wiener, 1948, p. 113-114).
Assim, para Wiener, o sistema nervoso central engendra um processo
circular – “emergindo do sistema nervoso para os músculos, e reentrando ao
sistema nervoso pelos órgãos dos sentidos” – cujo princípio seria idêntico ao
que havia encontrado em dispositivos de controle de máquinas (Wiener,
1948, p. 15). Essas idéias foram publicadas no artigo Behavior, Purpose
and Teleology (American Society for Cybernetics, [s.d.]) e apresentadas
por Rosenblueth em maio de 1942 a um grupo de pesquisadores em um
encontro sob os auspícios da Josiah Macy Foundation, organização filantró-
pica dedicada aos problemas decorrentes da inibição do sistema nervoso. É
desde essa época, quando a cibernética sequer havia sido batizada, que a
antropologia mantém seu vínculo teórico com ela: além dos pesquisadores
ligados à medicina, estiveram presentes naquele encontro os antropólogos
Gregory Bateson e Margaret Mead. A série de conferências posteriores,
conhecidas como The Macy Confereces, reuniu pesquisadores provenientes
de áreas diversas como a matemática, medicina, psicologia, filosofia, antro-
pologia e sociologia.
Por causa da II Grande Guerra, a primeira conferência aconteceu
apenas em 1946 sob o título Feedback Mechanisms and Circular Causal
Systems in Biological and Social Systems. O nome da conferência sofreu
pequenas alterações em várias edições até que em março de 1950, na sua
sétima edição, passou a se chamar Cybernetics: Circular Causal and
2
Percepção sensorial pela qual percebemos a posição e o movimento do nosso próprio corpo,
independentemente dos demais sentidos, como o tato ou a visão.203 Sincretismo afro-brasileiro e resistência cultural
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Feedback Mechanisms in Biological and Social Systems, nome que pre-
servou até a décima e última edição, em abril de 1953. Gregory Bateson e
Margaret Mead foram ativos participantes desses eventos e, juntamente
com o sociólogo Paul Lazarsfeld, constituíram a presença das ciências so-
ciais no core group das conferências.
Modelo antropológico e resíduo cultural
Segundo Rapport e Overing (2000, p. 102-115), a participação de
Bateson nos círculos da cibernética teve grande influência no seu trabalho
e ele é considerado um dos fundadores do pensamento cibernético nas
ciências sociais. Influenciado pela descoberta apresentada por Wiener de
que “o conceito social-científico de ‘informação’ e o conceito natural-cien-
tífico de ‘entropia negativa’ eram de fato sinônimos”, Bateson desenvolveu
teorias onde as relações sociais poderiam ser vistas como “comunicações
entre membros co-dependentes cuja interação habitual é caracterizada por
circularidades, oscilações, limites dinâmicos e feedback”. Além disso, se o
princípio cibernético da entropia, derivado da segunda lei da termodinâmica,
se traduz em um processo contínuo de redução de ordem em um sistema,
ou de aumento de seu caos, isso implica que os relacionamentos sociais não
podem permanecer os mesmos por muito tempo.
Ainda acrescentam Rapport e Overnig (2000, p. 113-115) que a ciber-
nética de Bateson influenciou amplamente o pensamento das ciências sociais
e, a despeito da influência das suas idéias não ser, na maioria das vezes,
explícita, sua contribuição é extensa e é encontrada na obra de vários cien-
tistas: em Rappaport, a “cultura é um todo que pode ser entendido como um
sistema cibernético que regula as relações entre as pessoas e seu ambien-
te”; o trabalho de Goffman sobre “como a estrutura social e a realidade são
mantidas pelo processo de sanções sociais, ‘encontros’ situacionais, ou ‘sis-
temas de atividades situadas’” carrega o sinal distintivo da cibernética; já
Strathern faz uso da figura do cyborg e mostra “como a natureza das coisas
no mundo é um efeito obtido pela contínua e recíproca relação entre as
partes em um particular ponto no tempo e espaço”; a influência da ciber-
nética está também implícita na noção estruturalista da sociedade, vista
como um sistema de comunicação baseado na troca de mensagens culturais
de tipo binário, e o trabalho de Lévi-Strauss na busca por combinações e204 Sérgio F. Ferretti
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Joo Ho Kim recombinações de unidades comunicacionais teria sido influenciado pela ci-
bernética subjacente à ciência da computação.
O seguinte comentário de Lévi-Strauss a respeito de um mito encontrado
no Canadá ocidental – “sobre uma raia que tentou controlar ou dominar o
Vento Sul e que teve êxito na empresa” (Lévi-Strauss, 2000, p. 35) – ilustra
bem a influência da cibernética em seu pensamento:
[…] a razão por que se escolheu a raia é que ela é um animal que,
considerando de um ou outro ponto de vista, é capaz de responder –
empregando a linguagem da cibernética – em termos de “sim” ou
“não”. É capaz de dois estados que são descontínuos, um positivo e
outro negativo. A função que a raia desempenha no mito é – ainda
que, evidentemente, eu não queira levar as semelhanças demasiado
longe – parecida com a dos elementos que se introduzem nos com-
putadores modernos e que se podem utilizar para resolver grandes
problemas adicionando uma série de respostas de “sim” e “não”. […]
Esta é a originalidade do pensamento mitológico – desempenhar o
papel do pensamento conceptual: um animal susceptível de ser usado
como, diria eu, um operador binário, pode ter, dum ponto de vista
lógico, uma relação com um problema que também é um problema
binário. […] Dum ponto de vista científico, a história não é verdadeira,
mas nós somente pudemos entender esta propriedade do mito num
tempo em que a cibernética e os computadores apareceram no mundo
cientifico dando-nos o conhecimento das operações binárias, que já
tinham sido postas em prática de uma maneira bastante deferente,
com objetos ou seres concretos, pelo pensamento mítico. (Lévi-
Strauss, 2000, p. 36-37).
Também encontramos componentes cibernéticos no pensamento de
Geertz que, por sua vez, vê na relação entre a evolução cultural e a evolução
biológica princípios da cibernética que levam a um processo contínuo de
realimentação e influências recíprocas e condicionadas:
À medida que a cultura, num passo a passo infinitesimal, acumulou-
se e se desenvolveu, foi concedida uma vantagem seletiva àqueles
indivíduos da população mais capazes de levar vantagem […] até que205 Sincretismo afro-brasileiro e resistência cultural
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o Australopiteco proto-humano, de cérebro pequeno, tornou-se o
Homo Sapiens, de cérebro grande, totalmente humano. Entre o padrão
cultural, o corpo e o cérebro foi criado um sistema de realimentação
(feedback) positiva, no qual cada um modelava o progresso do outro,
um sistema no qual a interação entre o uso crescente das ferramen-
tas, a mudança da anatomia da mão e a representação expandida do
polegar no córtex é apenas um dos exemplos mais gráficos. Subme-
tendo-se ao governo de programas simbolicamente mediados para a
produção de artefatos, organizando a vida social ou expressando
emoções, o homem determinou, embora inconscientemente, os estágios
culminantes do seu próprio desenvolvimento biológico. Literalmente,
embora inadvertidamente, ele próprio se criou. (Geertz, 1989, p. 60).
Apesar de ter estimulado hipóteses, teorias e pesquisas tanto na antro-
pologia como em diversos outros campos científicos, e ter dado origem a
novas áreas, como as ciências cognitivas, a cibernética foi esquecida como
a “vasta teoria das mensagens” aspirada por Wiener: “quase ninguém, hoje,
se auto-intitula um ‘ciberneticista’. Alguns acreditam que o projeto de
Wiener tornou-se vítima da moda científica […]. Outros pensam que […]
a cibernética, que estava baseada em uma inspirada generalização, tornou-
se vítima da incapacidade para lidar com detalhes” (Kunzru, 2000, p. 138).
Assim, seus modelos teóricos se desgastaram e, mesmo no campo do con-
trole artificial, onde se consolidaram sólidas disciplinas “cibernéticas” como
a informática e a robótica, a proposta de Wiener esvaziou-se na prática.
É importante notar que, se por um lado, a cibernética não se consolidou
no plano científico, ela influenciou de forma determinante a cultura moderna
com resíduos de seus modelos explicativos, engendrando, junto com outros
resíduos que são incessantemente produzidos pela tecnologia e ciência, o que
poderíamos chamar hoje de “cibercultura”. Tais resíduos são certas noções
e valores oriundos do discurso técnico e científico que, deslocados para o
plano do senso comum, introduzem novas distinções nos antigos esquemas
interpretativos para que eles possam fazer frente às propriedades de um
mundo no qual as fronteiras entre os domínios do orgânico, do tecno-econô-
mico e do textual tornaram-se permeáveis:206 Sérgio F. Ferretti
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Joo Ho Kim
[…] produzindo sempre montagens e misturas de máquina, corpo e
texto: enquanto natureza, os corpos e os organismos certamente pos-
suem uma base orgânica eles são cada vez mais produzidos em
conjunção com as máquinas, e esta produção é sempre mediada por
narrativas científicas […] e pela cultura em geral. (Escobar, 2000, p.
61, grifo do autor, tradução minha).
Um dos resíduos mais importantes que a cibernética legou à cibercultura
foi a visão de que os seres vivos e as máquinas não são essencialmente diferentes.
Essa noção se manifesta, em especial, nas tecnologias especializadas em
mimetizar a vida (tecnologia da informação, robótica, biônica e
nanotecnologia) e nas tecnologias especializadas em manipular a vida (as
biotecnologias), onde a relação entre organismo e máquina depende intrin-
secamente do texto, não só na forma de narrativa científica, mas também
na forma dos códigos que determinam o funcionamento tanto das máquinas
(softwares) como dos seres vivos (o código genético). Os produtos – reais
e imaginários – de tais tecnologias podem contradizer certas noções de
classificação fundamentais, tais como a oposição entre natureza e cultura,
entre orgânico e inorgânico, entre o homem e a máquina, dentre outras.
Segundo Lévi-Strauss (2002, p. 25), a exigência de ordem “constitui a
base de todo pensamento”. É por isso que seres ambíguos são, com freqüên-
cia, objetos de restrições e tabus: são sinais de desordem, contradizem as
fronteiras estabelecidas entre as categorias classificatórias e, assim, amea-
çam as próprias convicções acerca da ordem do mundo. De acordo com
Douglas (1991, p. 54), “a cultura medeia a experiência dos indivíduos. For-
nece-lhes, à partida, algumas categorias básicas, uma esquematização posi-
tiva na qual idéias e valores se encontram dispostos de forma ordenada”.
Constatada a existência de ambigüidades – que já são por si só, indicadoras
da existência do sistema classificatório que contradizem – a cultura pode
lidar com elas “de forma negativa, ignorando-as, percebê-las, ou ainda
percebê-las e condená-las. Positivamente, podemos enfrentar deliberadamente
a anomalia e tentar criar uma nova ordem do real onde a anomalia se possa
inserir” (Douglas, 1991, p. 53-54).
O universo não é um agregado de “objetos em si”, mas um repertório
organizado de objetos significantes que portam significados socialmente
compartilhados. E desde que “o sentido do signo (o valor saussuriano) é207 Sincretismo afro-brasileiro e resistência cultural
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Cibernética, ciborgues e ciberespaço...
definido por suas relações de contraste com outros signos do sistema […]
ele só é completo e sistemático na sociedade (ou na comunidade de falantes)
como um todo” (Sahlins, 1990, p. 10). Mas os signos e seus significados não
são partes de estruturas estáticas. Como Sahlins (1990, p. 10-11) observa,
além dos consensos que as sociedades elaboram serem resultados da
interação de perspectivas diversas, os significados das coisas e suas rela-
ções estruturais são reavaliados na realização prática e, freqüentemente,
repensados criativamente dentro de certos limites – dados pelo sentido co-
letivo empregado no uso real de um signo – em resposta às contingências
apresentadas pela experiência prática.
Assim podemos, por exemplo, entender que o consenso social acerca
do que é correio eletrônico (e-mail) está dentro dos limites de significações
de “eletrônico” e “correio” (electronic e mail), sobre os quais já havia um
consenso social. O mesmo ocorre com ciberespaço (cybernetics space) ou
ciborgue (cybernetics organism). São exemplos onde os termos que sinte-
tizam o discurso técnico-científico (“e” de electronic ou “cyber” de
cybernetics) adquirem novas conotações e engendram significados inéditos
na sua conjunção com antigos significantes (mail, space, organism), proje-
tando o sistema antigo de interpretação da realidade sob novas formas,
dentro das dadas possibilidades históricas e culturais de significação. O que
comumente tem se chamado de “cibercultura” é uma resposta positiva da
cultura na criação de uma “nova ordem do real” frente aos novos contextos
práticos que desafiam as categorias tradicionais de interpretação da realidade.
Os robôs e computadores são antigos personagens do nosso imaginário
e, de certa forma, mais antigos que a própria cibernética. Mas há entre o
homem de lata mecanizado e o corpo humano, ou entre uma máquina de
calcular programável à válvula e a mente humana, descontinuidades gigan-
tescas, de tal forma que eles dificilmente passam de representações carica-
turadas do homem, chegando, em muitos casos, a reafirmar a oposição das
categorias que separam o humano da máquina. Nesse sentido não são,
ainda, “cibernéticos”, pois a principal característica enunciada pela “ciberné-
tica” é a de que não existe descontinuidade entre máquinas e organismo. O
futuro cibernético implica uma nova ordem do real, porque, enfim, a
intercambialidade é apenas uma questão de compatibilidade funcional.208 Sérgio F. Ferretti
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Joo Ho Kim
Ciborgues: o corpo pós-humano
As máquinas do final do século XX tornaram completamente ambígua
a diferença entre o natural e o artificial, entre a mente e o corpo, entre
aquilo que se autocria e aquilo que é externamente criado, podendo-
se dizer o mesmo de muitas outras distinções que se costumavam
aplicar aos organismos e às máquinas. Nossas máquinas são
perturbadoramente vivas e nós mesmos assustadoramente inertes.
(Haraway, 2000, p. 46).
Provavelmente o primeiro produto cultural dessa “nova ordem do real”
baseada na cibernética, o ciborgue conjuga as promessas da biônica com as
perspectivas anunciadas pela cibernética. O termo bionics foi cunhado em
1960 pelo major Jack Steele, da Força Aérea Americana, para descrever o
emergente campo de pesquisas cuja análise do funcionamento dos sistemas
vivos visa reproduzir os truques da natureza em artefatos sintéticos (Lodato,
2001, p. 2). Em outras palavras, a “biônica” é uma área relacionada com a
biomimética, que pode ser definida como a “ciência de sistemas que têm
alguma função copiada da natureza, ou que represente características de
sistemas naturais ou seus análogos” (Vincent, [s.d.], p. 1, tradução minha).
Já o termo cyborg nasceu da contração de cybernetics organism e foi
apresentado, também em 1960, por Manfred E. Clynes e Nathan S. Kline
em um simpósio sobre os aspectos psico-fisiológicos do vôo espacial. Inspi-
rados por uma experiência realizada nos anos 1950 em um rato, no qual foi
acoplada uma bomba osmótica que injetava doses controladas de substân-
cias químicas, eles apresentaram a idéia de se ligar ao ser humano um
sistema de monitoramento e regulagem das funções físico-químicas a fim de
deixá-lo dedicado apenas às atividades relacionadas com a exploração es-
pacial.
Em 1972, Martin Caidin lançou a ficção científica Cyborg, que conta
a história de um piloto de testes da Força Aérea americana, Steve Austin,
que após um grave acidente é reconstruído com partes biônicas pelo labo-
ratório cibernético do Dr. Killian:
[…] para transformar a carcaça de um humano mutilado não apenas
em um novo homem, mas em um tipo totalmente novo de homem.209 Sincretismo afro-brasileiro e resistência cultural
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Cibernética, ciborgues e ciberespaço...
Uma nova raça. Um casamento da biônica (biologia aplicada à enge-
nharia de sistemas eletrônicos) e cibernética. Um organismo
cibernético. Chame-o de ciborgue
. (Caidin, 1972, p. 55-56, tradução minha).
O ciborgue que Caidin nos legou é produto de uma biônica reinventada
que, sob a inspiração da idéia de Clynes e Kline, não é mais uma simples
técnica de mimese da natureza, mas um meio de reconstruí-la e superá-la.
A história do homem biônico Steve Austin tornou-se famosa com a série de
TV entitulada The Six Million Dollar Man (“O homem de seis milhões de
dólares”), veiculada na década de 1970 (Abbate, 1999). A figura do homem
biônico, cujo corpo natural é melhorado com o acoplamento de máquinas
vem, desde então, sendo reproduzida à exaustão.
O ciborgue é também uma forma de retomar o sonho de Victor
Frankenstein disfarçando aquilo que causava horror na sua criatura morta-
viva feita com retalhos de cadáveres de pessoas e animais esquartejados
“ainda vivos para aproveitar-lhe o sopro de vida na recomposição”:
Ninguém poderia suportar o horror do seu semblante. Uma múmia
saída do sarcófago não causaria tão horripilante impressão. Quando o
contemplara, antes de inocular-lhe o sopro vital, já era feio. Mas
agora, com os nervos e músculos capazes de movimento, converteu-
se em algo que nem mesmo no inferno dantesco se poderia conceber.
(Shelley, 1998, p. 53-54).
O horror que a criatura frankensteiniana inspira, e que o ciborgue tenta
superar, é a manifestação do nosso horror ao caos, é um horror cultural.
Afinal, sentimos medo dos mortos-vivos não porque tememos pela nossa
integridade física, mas porque, desde que resultam da justaposição de termos
provenientes de domínios imiscíveis, eles constituem uma ameaça à ordem
classificatória do cosmos.
Como nos lembra Pyle (2000, p. 125, tradução minha), “quando faze-
mos ciborgues – ao menos quando os fazemos nos filmes – também faze-
mos e, nessa ocasião, desfazemos nossas concepções sobre nós mesmos”.
Produto do pensamento utilitarista aplicado sem limites (se é que há algum
limite para esse tipo de pensamento) à carne e ao aço, o ciborgue anuncia210 Sérgio F. Ferretti
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Joo Ho Kim a imagem de um homem “melhorado” com a acoplagem da tecnologia e
cada vez mais além das limitações de desempenho ditadas pela natureza: a
“performance” é a noção fundamental para a reformulação da imagem do
ser humano na direção da imagem do “pós-humano”.
Certamente, os significados do homem pós-humano foram determina-
dos sobremaneira pelos resultados e promessas da ciência e da tecnologia,
sem os quais o ciborgue não seria sequer inteligível. O coração é um dos
objetos mais emblemáticos – tanto pela sua importância fisiológica como
pelo seu valor simbólico – dos esforços científicos em superar os limites do
homem com máquinas. Não por acaso, o coração foi um dos primeiros
órgãos – talvez o primeiro – a receber o acoplamento definitivo de uma
máquina.
Em outubro de 1958, o cirurgião cardíaco Ake Senning e o engenheiro
eletrônico Rune Elmquist implantaram o primeiro marca-passo interno em
um ser humano. Esse implante inaugurou um bem sucedido progresso na
área de próteses e implantes cardíacos, desde válvulas até bombas auxilia-
res, além de gerações de marca-passos cada vez mais eficientes e práticos.
E, apesar dos enormes riscos envolvidos e dos insucessos, o sonho de se
construir um ser humano no qual zune um coração totalmente artificial
continua. Ao contrário de seus antecessores da década de 1980 – tais como
o Jarvik-7, que mantinha o paciente ligado a um compressor externo – o
coração modelo AbioCor é uma máquina que mimetiza praticamente todas
as funções mecânicas do coração natural, e é totalmente implantável. Em
testes desde julho de 2001, o AbioCor é, sem dúvida, uma evolução, mas
ainda possui problemas que o impedem de ser considerado um sucesso.
Em resposta às críticas acerca dos problemas que seus protótipos têm
apresentado, David Lederman, o engenheiro fundador da Abiomed, produ-
tora do AbioCor, afirmou que “o coração artificial continuou funcionando em
situações que poderiam ter lesado ou destruído um coração natural, como
insuficiência de oxigênio no sangue e uma febre de 41,5º C” (Ditlea, 2002,
p. 39). Da forma como Lederman colocou, o ponto não é apenas se o
AbioCor um dia substituirá ou não o coração humano, mas que, apesar das
inconveniências apresentadas, o coração artificial já supera o original em
alguns aspectos.
O desenvolvimento de próteses também está intimamente ligado à
superação de limites. Originalmente tais limites eram os impostos àqueles211 Sincretismo afro-brasileiro e resistência cultural
Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 10, n. 21, p. 199-219, jan./jun. 2004
Cibernética, ciborgues e ciberespaço... cuja natureza do corpo fora mutilada, por nascença ou acidente. Mas hoje, acoplados em próteses de competição, os para-atletas velocistas agregam
muita tecnologia. E eles são capazes ultrapassar, e muito, a velocidade das
pessoas comuns e chegam próximo às de recordistas mundiais olímpicos:
Tony Volpentest inspira admiração e, quem sabe, até despeito. Munido
de duas pernas mecânicas, o atleta americano, de 26 anos, faz 100
metros rasos em impressionantes 11 segundos e 36 centésimos de
segundo – apenas um segundo e meio atrás do recordista mundial, o
canadense Donovan Bailey, que nasceu com tudo no lugar. Medalha
de ouro nos Jogos Paraolímpicos de Atlanta, em 1996, Tony veio ao
mundo sem os pés e sem as mãos (Dias, 1999, p. 136).
Exibindo próteses de alta tecnologia, desenhadas sob medida para com-
petições, a imagem de para-atletas tem sido explorada em propagandas e
desfiles de moda. No discurso da mídia e da propaganda, onde exibem
ostensivamente o seu corpo híbrido, os para-atletas corredores materializam
hoje as aspirações do futuro do corpo pós-humano, o homem redesenhado
para uma “melhor performance”. De certa forma, poderíamos dizer que
uma das manifestações da cibercultura é o “culto à performance”. Com
efeito, as próteses de alta perfomance assumem o design dinamizado,
matematizado e geometrizado da máquina: elas não pretendem mais repro-
duzir as formas do corpo humano, mas são desenhados apenas em função
do desempenho.
Talvez o corpo ideal do body building – atlético, sexy e clean – tão
em moda atualmente, já seja um reflexo no nosso cotidiano desse mesmo
pensamento cibernético. Na medida em que a máquina torna-se, de fato, a
unidade de medida do homem, uma nova postura estética do corpo toma
forma frente à valorização da performance: o que é belo está, cada vez
mais, relacionado com o desempenho desejado (essa noção tão cibernética).
Daí a noção afetada de pureza na qual comer um torresmo ou fumar um
cigarro são atos relativamente mais impuros do que ingerir complementos
alimentares sintéticos ou injetar hormônios artificiais. Na perspectiva da
“estética” da performance, as máquinas de musculação, os programas pla-
nejados de modelagem muscular, as próteses estéticas, as técnicas cirúrgicas
de lipoaspiração, a toxina botulínica (Botox), os anabolizantes e os comple-212 Sérgio F. Ferretti
Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 10, n. 21, p. 199-219, jan./jun. 2004
Joo Ho Kim mentos alimentares são apenas meios que a tecnologia disponibiliza para se
atingir a imagem do corpo de alto desempenho, a imagem na direção do
corpo pós-humano.
As fronteiras do ciberespaço
Ciberespaço. Uma alucinação consensual vivida diariamente por bi-
lhões […] Uma representação gráfica dos dados abstraídos dos ban-
cos de dados de cada computador no sistema humano. Complexidade
inimaginável. Linhas de luz enfileiradas no não-espaço da mente,
agregados e constelações de dados. Como luzes da cidade, retroce-
dendo… (Gibson, 1984, p. 51, tradução minha).
A efetiva vulgarização da cibernética ocorre a partir dos anos 1980 sob
a influência de um tipo de literatura de ficção científica que ficou conhecida
como cyberpunk.
3
A influência desse gênero literário no cinema foi determinante
para a disseminação dos contornos e conotações que o “cibernético” tem
hoje. O cyberpunk aglutinou a visão distópica do movimento punk e os
estereótipos de seu estilo de vida ao imaginário futurista no qual as gadgets
(bugigangas e geringonças) “cibernéticas” e os ciborgues foram amplamente
cotidianizados. Um dos principais legados do cyberpunk é a imagem do
homem-gadget (homem-objeto que não é muito mais que um gadget
acoplado a um sistema ou rede de gadgets) cujo corpo é um banal suporte
de biônicos e cuja mente só encontra sua totalidade quando conectada ao
“ciberespaço”.
Em seu livro de não ficção, The Hacker Crackdown – Law and
Disorder on the Electronic Frontier, Bruce Sterling comenta que o termo
cyberspace surgiu em 1982 na literatura cyberpunk (Sterling, 1992, p. XI).
Naquele ano, Willian Gibson lançou Neuromancer, considerado um clássico
da literatura cyberpunk, que além do termo cyberspace, também introduziu
o termo matrix para se referir ao ciberespaço como uma rede global de
simulação. Sterling acrescenta que o “ciberespaço” não é uma fantasia de
3
A invenção do termo cyberpunk é cercada de controvérsias. Em 1980, Bruce Bethke escreveu
um conto chamado Cyberpunk que foi publicado em 1983 no Amazing Science Fiction Stories
(Bethke, [s.d]), mas parece que o uso como forma de circunscrever um estilo literário foi
feito por Gardner Dozois na sua resenha para o primeiro livro de Gibson, Neuromancer
(Walleij, [s.d.], cap. 8).213 Sincretismo afro-brasileiro e resistência cultural
Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 10, n. 21, p. 199-219, jan./jun. 2004
Cibernética, ciborgues e ciberespaço...
ficção científica, mas um “lugar” onde temos experiências genuínas e que
existe há mais de um século:
Mas o território em questão, a fronteira eletrônica, tem cerca de 130
anos. Ciberespaço é o “lugar” onde a conversação telefônica parece
ocorrer. Não dentro do seu telefone real, o dispositivo de plástico
sobre sua mesa. […] [Mas] O espaço entre os telefones. O lugar
indefinido fora daqui, onde dois de vocês, dois seres humanos, real-
mente se encontram e se comunicam. […] Apesar de não ser exa-
tamente “real”, o “ciberespaço” é um lugar genuíno. Coisas aconte-
cem lá e têm conseqüências muito genuínas. […] Este obscuro
submundo elétrico tornou-se uma vasta e florescente paisagem eletrô-
nica. Desde os anos 60, o mundo do telefone tem se cruzado com os
computadores e a televisão, e […] isso tem uma estranha espécie de
fisicalidade agora. Faz sentido hoje falar do ciberespaço como um
lugar em si próprio. […] Porque as pessoas vivem nele agora. Não
apenas um punhado de pessoas […] mas milhares de pessoas, pes-
soas tipicamente normais. […] Ciberespaço é hoje uma “Rede”, uma
“Matriz”, internacional no escopo e crescendo rapidamente e constan-
temente. (Sterling, 1992, p. XI-XII, tradução minha).
A preocupação de Sterling com o estatuto de “realidade” tem a ver
com a natureza do ciberespaço atualmente conhecida como “virtual”. Esse
“virtual” é apreendido, em muitos casos, como uma oposição à natureza
“real” da “realidade”. Entretanto, o reconhecimento de que a “realidade” é
“uma qualidade pertencente a fenômenos que reconhecemos terem um ser
independente de nossa própria volição (não podemos ‘desejar que não exis-
tam’)” (Berger; Luckmann, 1998, p. 11) basta para ver que essa oposição
“virtual” versus “real” é ilusória e bastante confusa. Os crimes “virtuais”
estão aí para nos mostrar de uma forma bem dura que a “virtualidade” do
ciberespaço possui uma inegável natureza coercitiva de “realidade”. O fato
é que já somos seres “virtuais”, queiramos ou não, ao menos dentro dos
grandes bancos de dados de corporações e governos, e cada vez mais temos
o conhecimento – “a certeza de que os fenômenos são reais e possuem
características específicas” (Berger; Luckmann, 1998, p. 11) – de que o
ciberespaço, apesar de virtual, é bastante “real”.214 Sérgio F. Ferretti
Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 10, n. 21, p. 199-219, jan./jun. 2004
Joo Ho Kim
- i c e D
l a m 01234567890 11 12 13 14 15 1
- á n i B
o i r
0 0 0 01 0 0 00 1 0 01 1 0 00 0 1 01 0 1 00 1 1 01 1 1 00 0 0 11 0 0 10 1 0 11 1 0 10 0 1 11 0 1 10 1 1 11 1 1 1
- a x e H
- i c e d
l a m
0123456789ABCDEF
5
Existe uma correspondência direta entre as bases binária, decimal e hexadecial de numeração.
O número decimal “10”, por exemplo, corresponde ao número hexadecimal “A” (não
confundir com a letra “a”) e ao número binário “1010”, conforme a seguinte tabela:
É certo que, assim como no ciborgue, os limites de significação do
ciberespaço estão diretamente relacionados com a inteligibilidade que a pro-
dução e o progresso técnico e científico têm no senso comum. Apesar do
conceito do computador digital existir desde 18394
e o computador eletrônico
ter surgido na década de 1940, o ciberespaço foi, até o início da década de
1970, uma abstração lógica e matemática compartilhada apenas por especia-
listas e técnicos. E durante muito tempo, foi o texto, na forma de complexos
códigos de signos lógicos e mnemônicos textuais, e não a imagem visual, a
mediação por excelência entre as máquinas computadoras e o homem.
O texto introduziu, aos antigos computadores baseados em cartões
perfurados, o teclado e o display alfanuméricos. A mediação derradeira
entre o homem e a máquina são os bits: pequenos sinais físicos que podem
assumir apenas dois valores, convencionalmente representados por “um” e
“zero”. O bit é o átomo da informação eletrônica: tudo que é armazenado,
processado e intercambiado dentro dos computadores e entre eles são, fisi-
camente, extensas seqüências binárias organizadas em bytes, agrupamentos
formados por oito bits. O que temos no disco rígido, CD, disquete ou na
Internet são, em última instância, apenas cadeias binárias. O que trafega
pelo cabo da impressora, pela linha telefônica ligada ao modem ou pelo cabo
da rede são bits. A própria indexação das cadeias corretas que compõem
um arquivo ou um programa está em outras cadeias binárias.
Grosso modo, um byte é a menor unidade de significação digital. Um
byte pode assumir 256 valores (28
bits) que podem ser expressos nas mais
variadas notações de números (por exemplo, representados por “0 a 255”,
“0 a 11111111” ou “0 a FF”, na base decimal, binária ou hexadecimal,
5
respectivamente) ou outros signos textuais. Desde cedo, na informática,
4
Charles Babbage desenhou e desenvolveu o que é considerado o primeiro computador digital.
A sua “máquina diferencial” era um computador mecânico projetado para solucionar proble-
mas matemáticos, incluindo equações diferenciais. Apesar de não ter sido construída, já
incorporava muitos princípios que foram redescobertos no desenvolvimento posterior de
máquinas de processamento de dados. (Winegrad; Akera, 1996).215 Sincretismo afro-brasileiro e resistência cultural
Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 10, n. 21, p. 199-219, jan./jun. 2004
Cibernética, ciborgues e ciberespaço...
convencionou-se tabelas de conversão dos bytes para caracteres textuais: no
ASCII (American Standard Code for Information Interchange), o padrão
quase universal, por exemplo, as letras maiúsculas de A à Z correspondem
aos valores de 41 a 90 das 256 possibilidades do byte (Norton, 1996, p. 339-342).
Ora, quais seriam as traduções possíveis de uma realidade abstrata que
se expressa antes por códigos textuais do que por imagens sensíveis? Como
se dá sentido imagético àquilo que essencialmente não possui expressão
visual? É a imagem, ou melhor, são os sistemas de imagens articulados por
modelos de simulação que possibilitaram realidades nas quais “clicar” e
“arrastar” documentos com um mouse faz mais sentido do que digitar “move
C:/dir_1/dir_N/meu_arquivo.DOC C:/dir_2/dir_N”. “Enquanto ‘imagens’,
elas não nos permitem entender o modelo abstrato que as engendra, mas
abrem uma janela para ele” (Queáu, 1993, p. 92). Aqui, o olho acoplado ao
mouse torna-se o órgão do conhecimento tátil que, interagindo com as simu-
lações imagéticas dos softwares, passa a ser “como a mão do cirurgião que
corta e entra no corpo da realidade para apalpar as massas palpitantes
dentro dela” (Taussig, 1993, p. 31, tradução minha). “Não se trata de mais
um gadget […] surge uma nova relação entre a imagem e linguagem.
Agora o legível pode engendrar o visível. Pela primeira vez, formalismos
abstratos podem produzir, diretamente, imagens” (Quéau, 1993, p. 91). A
imagem gerada pelo computador não é apenas imagem de algo, é resultado
de simulações de modelos que reformulam de modo sensível os conceitos
lógicos e matemáticos contidos nos dados e nos programas de computador:
“Se alguma coisa preexiste ao pixel e à imagem é o programa, isto é,
linguagem e números, e não mais o real. Eis porque a imagem numérica não
representa mais o mundo real, ela o simula” (Couchot, 1993, p. 24). Essas
imagens sintéticas são resultado do domínio da imagem matricial pelo com-
putador. Não meramente o domínio da reprodução de cópias, mas a
sintetização de imagens a partir da manipulação numérica do átomo da
imagem eletrônica: o pixel. Toda imagem eletrônica é um mosaico matricial
de pequenos pontos, os pixels, cada qual com uma gradação de luz e cor.
Ao contrário da televisão, onde o pixel é resultado de um processo mimético
de “contágio” da luz através dos vários suportes ópticos e eletrônicos, o
computador domina cada ponto da imagem: ele substitui “o automatismo
analógico das técnicas televisuais pelo automatismo calculado, resultante da
informação relativa à imagem. […] Cada pixel é um permutador minúsculo
entre imagem e número” (Couchot, 1993, p. 38-39).216 Sérgio F. Ferretti
Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 10, n. 21, p. 199-219, jan./jun. 2004
Joo Ho Kim
O que chamamos de realidade virtual é a camada de interação sensível
entre o homem e o ciberespaço. Mas as representações imagéticas da
informação digital implicam uma descontinuidade entre aquilo que vemos e
aquilo que realmente está por trás da simulação. A realidade virtual opera
em dois sentidos, um que cria mundos sensoriais da informação digital e
outro que trabalha ocultando a estrutura essencial e material do ciberespaço.
São movimentos indissociáveis e, por mais perfeito que venha a ser um
modelo de simulação, ele será sempre ambíguo: o mesmo poder de simular
mundos é o poder de falsificar e mascarar (Taussig, 1993, p. 42-43, tradução
minha).
A tecnologia para que o computador passasse a ser o lugar por exce-
lência de um “espaço virtual” foi inicialmente desenvolvida pela Xerox, em
1971, com um protótipo de interface gráfica: era o primórdio daquilo que
viria ser chamada de user friendly interface, popularizada com o lança-
mento do Macintosh uma década depois (Negroponte, 1995, p. 90). O nosso
computador de hoje é um desktop virtual, um plano de signos organizados
seletivamente e baseados em expectativas de similaridade para construir um
simulacro visual, mediador da nossa relação com o ciberespaço. No plano
dessa realidade sensorial, o cursor do mouse é o nosso “dedo virtual” que
arrasta outros “objetos virtuais” para o “lixo virtual” ou aciona o “telefone”
(modem ligado à linha telefônica) que nos conecta a outros sistemas e à
Internet.
“O quanto de cópia deve a cópia ter para ter efeito sobre aquilo de que
é cópia? Quão ‘real’ a cópia deve ser?” (Taussig, 1993, p. 51, tradução
minha). Os “infogramas” que compõem a realidade virtual do ciberespaço
são “ideogramas pobremente executados” (poorly executed ideogram),
“componentes semânticos” que articulam as semelhanças entre os objetos
cibernéticos que mascaram e os objetos materiais que mimetizam.
Enfim, quanto mais humanizamos e tornamos “amigável” a nossa rela-
ção com o ciberespaço, por meio de simulações que imitam a nossa reali-
dade não-virtual, mais nos tornamos cibernéticos. A contrapartida da natu-
ralização do ciberespaço é que nos tornamos, também, extensão dele: à
medida que a virtualidade se transforma em campo de ação prática, cada
vez mais a realização total do ser humano prescinde de sua inserção como
coisa virtual do ciberespaço. Daí nossa fascinação e temor em relação aos
hackers, que tanto trafegam como sujeitos virtuais do ciberespaço como217 Sincretismo afro-brasileiro e resistência cultural
Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 10, n. 21, p. 199-219, jan./jun. 2004
Cibernética, ciborgues e ciberespaço...
manipulam os códigos “secretos” por trás das realidades virtuais. Figura de
condição ambígua, notoriamente imaginada como alguém que não é nem
criança e nem adulto, mas um adolescente, o hacker é referência
emblemática da cibercultura. Ele, por um lado, é objeto de estranhamento
porque está associado justamente às zonas mais ambíguas do ciberespaço.
Mas por outro lado, o hacker é a própria síntese da apologia ao mundo
sintético como extensão do homem, incorpora a imagem daquele que trans-
cende a condição de objeto virtualizado e torna-se sujeito capaz de superar
a mediocridade e o estranhamento que temos em relação ao nosso próprio
cotidiano cibernetizado.
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Recebido em 31/12/2003
Aceito em 01/03/2004
Tecnologia, Cultura e Educação
sábado, 27 de fevereiro de 2016
sábado, 7 de novembro de 2015
NOVAS PRÁTICAS DE LEITURA E ESCRITA: LETRAMENTO NA CIBERCULTURA MAGDA SOARES*
Disponível em <http://www.cedes.unicamp.br>
NOVAS PRÁTICAS DE LEITURA E ESCRITA:
LETRAMENTO NA CIBERCULTURA
MAGDA SOARES*
RESUMO: No contexto de uma diferenciação entre a cultura do
papel e a cultura da tela, ou cibercultura, o artigo busca uma me-
lhor compreensão do conceito de letramento, confrontando
tecnologias tipográficas e tecnologias digitais de leitura e de escrita,
a partir de diferenças relativas ao espaço da escrita e aos mecanis-
mos de produção, reprodução e difusão da escrita; argumenta que
cada uma dessas tecnologias tem determinados efeitos sociais,
cognitivos e discursivos, resultando em modalidades diferentes de
letramento, o que sugere que a palavra seja pluralizada: há
letramentos, não letramento.
Palavras-chave: Letramento. Cultura do papel. Cibercultura. Práti-
cas de leitura. Práticas de escrita.
NEW READING AND WRITING PRACTICES:
LITERACY IN THE CYBERCULTURE
ABSTRACT: In the context of two different cultures – print cul-
ture and electronic culture, or cyberculture –, this article seeks a
clearer comprehension of literacy opposing typographic and digi-
tal technologies of reading and writing. Through the differences
regarding the writing space and the mechanisms of producing, re-
producing and diffusing ideas, it argues that different kinds of lit-
eracy – that is, different social, cognitive and discursive effects –
have resulted from such different modalities of written communi-
cation. Since literacy is not a single, homogeneous phenomenon, it
finally suggests this word should be used in its plural rather than
singular form: literacies.
Key words: Literacy. Print culture. Cyberculture. Reading practices.
Writing practices.
143 Educ. Soc., Campinas, vol. 23, n. 81, p. 143-160, dez. 2002
* Professora Titular Emérita da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas
Gerais (UFMG). E-mail: mbecker.soares@terra.com.br144 Educ. Soc., Campinas, vol. 23, n. 81, p. 143-160, dez. 2002
Disponível em <http://www.cedes.unicamp.br>
m um movimento de certa forma contrário ao mais freqüente,
que é o de ampliar a compreensão do presente interrogando o
passado que o gerou, tenta-se, neste texto, essa mesma
compreensão do presente interrogando o futuro que nele está sendo
gerado. Em outras palavras: o que aqui se pretende é perseguir uma
mais ampla compreensão de letramento, buscando um novo sentido
que essa palavra e fenômeno, recém-introduzidos no contexto de uma
cultura do papel, e nela ainda não plenamente compreendidos, já vêm
adquirindo, como conseqüência do surgimento, ao lado da cultura do
papel, de uma cibercultura.
1
Conceitos de letramento
O plural, nesse subtítulo – conceitos –, explica-se pela imprecisão
que, na literatura educacional brasileira, ainda marca a definição de
letramento, imprecisão compreensível se se considera que o termo foi
recentemente introduzido nas áreas das letras e da educação.
2
Entretanto,
não há, propriamente, uma diversidade de conceitos, mas diversidade
de ênfases na caracterização do fenômeno.
Há autores que consideram que letramento são as práticas de
leitura e escrita: segundo Kleiman (1995, p. 19): “Podemos definir hoje
o letramento como um conjunto de práticas sociais que usam a escrita,
enquanto sistema simbólico e enquanto tecnologia, em contextos
específicos, para objetivos específicos”. Em texto posterior, a autora
declara entender letramento “como as práticas e eventos relacionados
com uso, função e impacto social da escrita” (idem, 1998, p. 181). Nessa
concepção, letramento são as práticas sociais de leitura e escrita e os
eventos em que essas práticas são postas em ação, bem como as
conseqüências delas sobre a sociedade.
Já Tfouni (1988, p. 16), em obra que foi uma das primeiras a não
só utilizar, mas também a definir o termo letramento, conceitua-o em
confronto com alfabetização, conceito que reafirma em obra posterior:
“Enquanto a alfabetização ocupa-se da aquisição da escrita por um
indivíduo, ou grupo de indivíduos, o letramento focaliza os aspectos
sócio-históricos da aquisição de um sistema escrito por uma sociedade”
(idem, 1995, p. 20). A autora reafirma essa diferença entre alfabetização
e letramento insistindo no caráter individual daquela e social deste:
A alfabetização refere-se à aquisição da escrita enquanto aprendizagem de
habilidades para leitura, escrita e as chamadas práticas de linguagem. Isso é145 Educ. Soc., Campinas, vol. 23, n. 81, p. 143-160, dez. 2002
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levado a efeito, em geral, por meio do processo de escolarização e, portan-
to, da instrução formal. A alfabetização pertence, assim, ao âmbito do in-
dividual. O letramento, por sua vez, focaliza os aspectos sócio-históricos da
aquisição da escrita. Entre outros casos, procura estudar e descrever o que
ocorre nas sociedades quando adotam um sistema de escritura de maneira
restrita ou generalizada; procura ainda saber quais práticas psicossociais
substituem as práticas “letradas” em sociedades ágrafas. (Idem, 1988, p. 9,
e 1995, p. 9-10).
Assim, para Tfouni, letramento são as conseqüências sociais e
históricas da introdução da escrita em uma sociedade, “as mudanças
sociais e discursivas que ocorrem em uma sociedade quando ela se
torna letrada” (1995, p. 20). Conclui-se que Tfouni toma, para
conceituar letramento, o impacto social da escrita, que, para Kleiman,
é apenas um dos componentes desse fenômeno; Kleiman acrescenta a
esse outros componentes: também as próprias práticas sociais de
leitura e escrita e os eventos em que elas ocorrem compõem o conceito
de letramento. Em ambas as autoras, porém, o núcleo do conceito de
letramento são as práticas sociais de leitura e de escrita, para além da
aquisição do sistema de escrita, ou seja, para além da alfabetização.
Embora mantendo esse foco nas práticas sociais de leitura e de
escrita, este texto fundamenta-se numa concepção de letramento
como sendo não as próprias práticas de leitura e escrita, e/ou os eventos
relacionados com o uso e função dessas práticas, ou ainda o impacto
ou as conseqüências da escrita sobre a sociedade, mas, para além de
tudo isso, o estado ou condição de quem exerce as práticas sociais de
leitura e de escrita, de quem participa de eventos em que a escrita é
parte integrante da interação entre pessoas e do processo de
interpretação dessa interação – os eventos de letramento, tal como
definidos por Heath (1982, p. 93): “A literacy event is any occasion
in which a piece of writing is integral to the nature of participant’s
interactions and their interpretive processes.” (Um evento de
letramento é qualquer situação em que um portador qualquer de
escrita é parte integrante da natureza das interações entre os
participantes e de seus processos de interpretação.) Ou seja: coerente-
mente com o conceito apresentado em Soares (1998b), letramento é,
na argumentação desenvolvida neste texto, o estado ou condição de
indivíduos ou de grupos sociais de sociedades letradas que exercem
efetivamente as práticas sociais de leitura e de escrita, participam com-
petentemente de eventos de letramento. O que esta concepção acres-
centa às anteriormente citadas é o pressuposto de que indivíduos ou
grupos sociais que dominam o uso da leitura e da escrita e, portanto,146 Educ. Soc., Campinas, vol. 23, n. 81, p. 143-160, dez. 2002
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têm as habilidades e atitudes necessárias para uma participação ativa e
competente em situações em que práticas de leitura e/ou de escrita
têm uma função essencial, mantêm com os outros e com o mundo que
os cerca formas de interação, atitudes, competências discursivas e
cognitivas que lhes conferem um determinado e diferenciado estado ou
condição de inserção em uma sociedade letrada.
3
Letramento é, nesta concepção, o contrário de analfabetismo
(razão pela qual a palavra alfabetismo tem sido freqüentemente usada
em lugar de letramento, e seria mesmo mais vernácula que esta última).
Se analfabetismo é, como habitualmente definido nos dicionários, o
estado de analfabeto (cf. Michaelis, Moderno dicionário da língua
portuguesa), o estado ou condição de analfabeto (cf. Novo Aurélio Século
XXI e Dicionário Houaiss da língua portuguesa), o contrário de
analfabetismo – alfabetismo ou letramento – é o estado ou condição de
quem não é analfabeto. Aliás, na própria formação da palavra letramento
está presente a idéia de estado: a palavra traz o sufixo -mento, que forma
substantivos de verbos, acrescentando a estes o sentido de “estado
resultante de uma ação”, como ocorre, por exemplo, em acolhimento,
ferimento, sofrimento, rompimento, lançamento; assim, de um verbo
letrar (ainda não dicionarizado, mas necessário para designar a ação
educativa de desenvolver o uso de práticas sociais de leitura e de escrita,
para além do apenas ensinar a ler e a escrever, do alfabetizar), forma-se
a palavra letramento: estado resultante da ação de letrar.
No quadro desse conceito de letramento, o momento atual
oferece uma oportunidade extremamente favorável para refiná-lo e
torná-lo mais claro e preciso. É que estamos vivendo, hoje, a
introdução, na sociedade, de novas e incipientes modalidades de
práticas sociais de leitura e de escrita, propiciadas pelas recentes
tecnologias de comunicação eletrônica – o computador, a rede (a web),
a Internet. É, assim, um momento privilegiado para, na ocasião
mesma em que essas novas práticas de leitura e de escrita estão sendo
introduzidas, captar o estado ou condição que estão instituindo: um
momento privilegiado para identificar se as práticas de leitura e de
escrita digitais, o letramento na cibercultura, conduzem a um estado
ou condição diferente daquele a que conduzem as práticas de leitura
e de escrita quirográficas e tipográficas,
4
o letramento na cultura do
papel. Uma compreensão mais clara deste último pode advir de seu
confronto e contraste com o primeiro, replicando, em sentido inverso,
Ong (1986), quando busca compreender o letramento pela via de
seu confronto e contraste com a cultura oral.147 Educ. Soc., Campinas, vol. 23, n. 81, p. 143-160, dez. 2002
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Da oralidade à escrita
Ong (1986) enfatiza a dificuldade que temos, as mentes letradas,
de entender a oralidade primária,
5
porque a tecnologia da escrita está
tão profundamente internalizada em nós que nos tornamos incapazes
de separá-la de nós mesmos, e assim não conseguimos perceber sua
presença e influência – não temos consciência da natureza do fenômeno
do letramento, temos dificuldade de captar as características do estado
ou condição de ser “letrado”, porque vivemos imersos nele. Para vencer
essa dificuldade, Ong procura compreender o letramento na cultura
do papel pela identificação das diferenças entre sociedades ágrafas e
sociedades letradas, confrontando o mundo da oralidade primária com
o mundo letrado.
Também os estudos sobre poemas épicos orais, feitos por Milman
Parry e Albert Lord, tomando como objeto de análise Homero e os
poetas épicos da antiga Iugoslávia, relatados em Lord (1960), e ainda
os estudos de Havelock (1963, 1982, 1986) sobre a introdução da
escrita na Grécia antiga, evidenciam, sempre tendo como termo de
referência o texto escrito, as características dos textos orais, memorizados
e recitados, características determinadas por sua forma de recepção,
por seu gênero, por sua função (preservação da memória), por seus
destinatários. Por outro lado, Goody (1977, 1987) analisa, fundamen-
tando-se em pesquisas históricas e antropológicas, as diferenças de
“mentalidade” entre povos de culturas ágrafas e povos de culturas
letradas. Esses autores evidenciam como a introdução e prática da
escrita trouxeram significativas mudanças na recepção do texto, nos
gêneros e funções do texto, nos processos cognitivos e discursivos,
enfim, no estado ou condição dos destinatários dos textos.
Para Ong, Parry, Lord, Havelock e Goody, o confronto e
contraposição entre culturas letradas e culturas de oralidade
primária permitiram uma compreensão mais ampla não só destas,
mas também daquelas; da mesma forma, podemos buscar uma
compreensão mais ampla da natureza do letramento na cultura do
papel pela análise do processo em andamento, na cibercultura, de
desenvolvimento de novas práticas digitais de leitura e de escrita,
em confronto e contraposição com as já tradicionais práticas sociais
quirográficas e tipográficas de leitura e de escrita. Ou seja: recuperar
o significado de um letramento já ocorrido e já internalizado,
flagrando um novo letramento que está ocorrendo e apenas começa
a ser internalizado.148 Educ. Soc., Campinas, vol. 23, n. 81, p. 143-160, dez. 2002
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Tecnologias de escrita e letramento
Considerando que letramento designa o estado ou condição em
que vivem e interagem indivíduos ou grupos sociais letrados, pode-se
supor que as tecnologias de escrita, instrumentos das práticas sociais
de leitura e de escrita, desempenham um papel de organização e
reorganização desse estado ou condição. Lévy (1993) inclui as
tecnologias de escrita entre as tecnologias intelectuais, responsáveis por
gerar estilos de pensamento diferentes (observe-se o subtítulo de seu
livro As tecnologias da inteligência: “o futuro do pensamento na era da
informática”); esse autor insiste, porém, que as tecnologias intelectuais
não determinam, mas condicionam processos cognitivos e discursivos.
Esse condicionamento tem sido estudado, ora defendido ora
contestado, por muitos, em relação aos efeitos sobre culturas orais ou
sobre indivíduos não-letrados, da introdução e prática da tecnologia
de escrita quirográfica e tipográfica (basta citar aqui a admirável revisão
e argumentação em torno desse tema feita por Olson, 1994). O mesmo
começa a ocorrer em relação aos efeitos da introdução e prática da
tecnologia de escrita digital sobre culturas de letramento tipográfico;
entre os autores que vêm desenvolvendo essa reflexão, destacam-se Lévy
(1993, 1999) e Chartier (1994, 1998, 2001).
Neste texto, não se pretende discutir propriamente esses efeitos,
mas identificar as principais diferenças entre as tecnologias tipográficas
e as tecnologias digitais de leitura e escrita, para delas tentar inferir as
mudanças que provavelmente estão ocorrendo, ou virão a ocorrer, na
natureza do letramento – do estado ou condição de “letrado”, e assim
compreender melhor o próprio conceito de letramento.
Tecnologias tipográficas e digitais de leitura e de escrita
As diferenças entre tecnologias tipográficas e digitais de leitura e
de escrita serão consideradas, neste texto, restringindo-se a análise ao
uso de ambas essas tecnologias para a escrita de textos informativos ou
literários; não se incluirá na análise o uso delas para a interação a
distância. Assim, discute-se aqui, para confrontá-lo com o texto no
papel, o texto na tela – o hipertexto; embora se reconheça que a análise
da interação on-line (os chats, o e-mail, as listas de discussão, os fóruns,
entre outros) seria elucidativa para melhor compreensão do conceito
de letramento, confrontando-se essas modalidades de interação entre
as pessoas com as modalidades de interação face-a-face ou por meio da149 Educ. Soc., Campinas, vol. 23, n. 81, p. 143-160, dez. 2002
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escrita no papel, renuncia-se a incluí-la neste texto, porque esse uso da
tecnologia digital suscita questões específicas de natureza diversa,
sobretudo lingüística, cuja discussão ultrapassaria os limites e objetivos
deste artigo.
6
Para a análise das tecnologias tipográficas e digitais de leitura e
escrita de textos e hipertextos, são aqui considerados os dois elementos
mais relevantes de diferenciação entre elas: o espaço de escrita e os
mecanismos de produção, reprodução e difusão da escrita.
Os espaços de escrita
Espaço de escrita, na definição de Bolter (1991), é “o campo físico
e visual definido por uma determinada tecnologia de escrita”. Todas as
formas de escrita são espaciais, todas exigem um “lugar” em que a escrita
se inscreva/escreva, mas a cada tecnologia corresponde um espaço de
escrita diferente. Nos primórdios da história da escrita, o espaço de
escrita foi a superfície de uma tabuinha de argila ou madeira ou a
superfície polida de uma pedra; mais tarde, foi a superfície interna
contínua de um rolo de papiro ou de pergaminho, que o escriba dividia
em colunas; finalmente, com a descoberta do códice, foi, e é, a superfície
bem delimitada da página – inicialmente de papiro, de pergaminho,
finalmente a superfície branca da página de papel. Atualmente, com a
escrita digital, surge este novo espaço de escrita: a tela do computador.
Há estreita relação entre o espaço físico e visual da escrita e as
práticas de escrita e de leitura. O espaço da escrita relaciona-se até
mesmo com o sistema de escrita: a escrita em argila úmida, que recebia
bem a marca da extremidade em cunha do cálamo, levou ao sistema
cuneiforme de escrita; a pedra como superfície a ser escavada serviu
bem, num primeiro momento, aos hieróglifos dos egípcios, mas,
quando estes passaram a usar o papiro, sua escrita, condicionada por
esse novo espaço, foi-se tornando progressivamente mais cursiva e
perdendo as tradicionais e estilizadas imagens hieroglíficas, exigidas
pela superfície da pedra. O espaço de escrita relaciona-se também com
os gêneros e usos de escrita, condicionando as práticas de leitura e de
escrita: na argila e na pedra não era possível escrever longos textos,
narrativas; não podendo ser facilmente transportada, a pedra só permitia
a escrita pública em monumentos; a página, propiciando o códice,
tornou possível a escrita de variados gêneros, de longos textos.
O espaço de escrita condiciona, sobretudo, as relações entre
escritor e leitor, entre escritor e texto, entre leitor e texto. A extensa e150 Educ. Soc., Campinas, vol. 23, n. 81, p. 143-160, dez. 2002
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contínua superfície do espaço de escrita no rolo de papiro ou
pergaminho impunha uma escrita e uma leitura sem retornos ou
retomadas. Já o texto nas páginas do códice tem limites claramente
definidos, tanto a escrita quanto a leitura podem ser controladas por
autor e leitor, permitindo releituras, retomadas, avanços, fácil
localização de trechos ou partes; além disso, o códice torna evidente,
materializando-a, a delimitação do texto, seu começo, sua progressão,
seu fim, e cria a possibilidade de protocolos de leitura como a divisão
do texto em partes, em capítulos, a apresentação de índice, sumário.
No computador, o espaço de escrita é a tela, ou a “janela”; ao
contrário do que ocorre quando o espaço da escrita são as páginas do
códice, quem escreve ou quem lê a escrita eletrônica tem acesso, em
cada momento, apenas ao que é exposto no espaço da tela: o que está
escrito antes ou depois fica oculto (embora haja a possibilidade de ver
mais de uma tela ao mesmo tempo, exibindo uma janela ao lado de
outra, mas sempre em número limitado).
O que é mais importante, porém, é que a escrita na tela possibilita
a criação de um texto fundamentalmente diferente do texto no papel
7
–
o chamado hipertexto que é, segundo Lévy (1999, p. 56), “um texto
móvel, caleidoscópico, que apresenta suas facetas, gira, dobra-se e
desdobra-se à vontade frente ao leitor”. O texto no papel é escrito e é
lido linearmente, seqüencialmente – da esquerda para a direita, de cima
para baixo, uma página após a outra; o texto na tela – o hipertexto – é
escrito e é lido de forma multilinear, multi-seqüencial, acionando-se links
ou nós que vão trazendo telas numa multiplicidade de possibilidades,
sem que haja uma ordem predefinida. A dimensão do texto no papel é
materialmente definida: identifica-se claramente seu começo e seu fim,
as páginas são numeradas, o que lhes atribui uma determinada posição
numa ordem consecutiva – a página é uma unidade estrutural; o
hipertexto, ao contrário, tem a dimensão que o leitor lhe der: seu começo
é ali onde o leitor escolhe, com um clique, a primeira tela, termina
quando o leitor fecha, com um clique, uma tela, ao dar-se por satisfeito
ou considerar-se suficientemente informado – enquanto a página é uma
unidade estrutural, a tela é uma unidade temporal. Lévy (1993, p. 40-
41), em tópico que denomina significativamente e, esperemos, também
exageradamente de Réquiem para uma página, compara a leitura do texto
na página com a leitura do hipertexto:
Quando um leitor se desloca na rede de microtextos e imagens de uma enci-
clopédia, deve traçar fisicamente seu caminho nela, manipulando volumes,151 Educ. Soc., Campinas, vol. 23, n. 81, p. 143-160, dez. 2002
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virando páginas, percorrendo com seus olhos as colunas tendo em mente a
ordem alfabética. [...] O hipertexto é dinâmico, está perpetuamente em mo-
vimento. Com um ou dois cliques, obedecendo por assim dizer ao dedo e ao
olho, ele mostra ao leitor uma de suas faces, depois outra, um certo detalhe
ampliado, uma estrutura complexa esquematizada. Ele se redobra e desdo-
bra à vontade, muda de forma, se multiplica, se corta e se cola outra vez de
outra forma. Não é apenas uma rede de microtextos, mas sim um grande
metatexto de geometria variável, com gavetas, com dobras. Um parágrafo
pode aparecer ou desaparecer sob uma palavra, três capítulos sob uma pala-
vra ou parágrafo, um pequeno ensaio sob uma das palavras destes capítulos,
e assim virtualmente sem fim, de fundo falso em fundo falso. [...] Ao ritmo
regular da página se sucede o movimento perpétuo de dobramento e desdo-
bramento de um texto caleidoscópico.
Em síntese, a tela, como novo espaço de escrita, traz significativas
mudanças nas formas de interação entre escritor e leitor, entre escritor
e texto, entre leitor e texto e até mesmo, mais amplamente, entre o ser
humano e o conhecimento. Embora os estudos e pesquisas sobre os
processos cognitivos envolvidos na escrita e na leitura de hipertextos
sejam ainda poucos (ver, por exemplo, além das já citadas obras de
Lévy, também Rouet, Levonen, Dillon e Spiro, 1996), a hipótese é de
que essas mudanças tenham conseqüências sociais, cognitivas e
discursivas, e estejam, assim, configurando um letramento digital, isto
é, um certo estado ou condição que adquirem os que se apropriam da
nova tecnologia digital e exercem práticas de leitura e de escrita na
tela, diferente do estado ou condição – do letramento – dos que exercem
práticas de leitura e de escrita no papel. Para alguns autores, os processos
cognitivos inerentes a esse letramento digital reaproximam o ser
humano de seus esquemas mentais; Ramal (2002, p. 84) afirma:
Estamos chegando à forma de leitura e de escrita mais próxima do nosso
próprio esquema mental: assim como pensamos em hipertexto, sem limites
para a imaginação a cada novo sentido dado a uma palavra, também nave-
gamos nas múltiplas vias que o novo texto nos abre, não mais em páginas,
mas em dimensões superpostas que se interpenetram e que podemos com-
por e recompor a cada leitura.
Também Bolter (1991, p. 21-22) afirma que a escrita no papel,
com sua exigência de uma organização hierárquica e disciplinada das
idéias, contraria o fluxo natural do pensamento, que se dá por
associações, em rede – segundo esse autor, é o hipertexto que veio
legitimar o registro desse pensamento por associações, em rede,
tornando-o possível ao escritor e ao leitor.152 Educ. Soc., Campinas, vol. 23, n. 81, p. 143-160, dez. 2002
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Já Lévy (1999, p. 157) afirma que a cibercultura traz uma
mutação da relação com o saber. Para este autor, “o ciberespaço suporta
tecnologias intelectuais que amplificam, exteriorizam e modificam
numerosas funções cognitivas humanas”, como a memória, que “se
encontra tão objetivada em dispositivos automáticos, tão separada do
corpo dos indivíduos ou dos hábitos coletivos que nos perguntamos se
a própria noção de memória ainda é pertinente” (Lévy, 1993, p. 118);
como a imaginação, que se enriquece com as simulações; como a
percepção, que se amplifica com os sensores digitais, as realidades
virtuais. Chartier (1994, p. 100-101) considera o texto na tela uma
revolução do espaço da escrita que altera fundamentalmente a relação
do leitor com o texto, as maneiras de ler, os processos cognitivos:
Se abrem possibilidades novas e imensas, a representação eletrônica dos tex-
tos modifica totalmente a sua condição: ela substitui a materialidade do livro
pela imaterialidade de textos sem lugar específico; às relações de contigüida-
de estabelecidas no objeto impresso ela opõe a livre composição de fragmen-
tos indefinidamente manipuláveis; à captura imediata da totalidade da obra,
tornada visível pelo objeto que a contém, ela faz suceder a navegação de
longo curso entre arquipélagos textuais sem margens nem limites. Essas mu-
tações comandam, inevitavelmente, imperativamente, novas maneiras de ler,
novas relações com a escrita, novas técnicas intelectuais.
Pode-se concluir que a tela como espaço de escrita e de leitura traz
não apenas novas formas de acesso à informação, mas também novos
processos cognitivos, novas formas de conhecimento, novas maneiras de
ler e de escrever, enfim, um novo letramento, isto é, um novo estado ou
condição para aqueles que exercem práticas de escrita e de leitura na tela.
É deste novo letramento que nos fala Bolter, um entusiasta das novas
tecnologias, em seu já clássico livro (1991):
The printed book [...] seems destined to move to the margin of our literate
culture. […] the idea and the ideal of the book will change: print will no
longer define the organization and presentation of knowledge, as it has for the
past five centuries. This shift from print to the computer does not mean the
end of literacy . What will be lost is not literacy itself, but the literacy of print,
for electronic technology offers us a new kind of book and new ways to write
and read. The shift to the computer will make writing more flexible, but it
will also threaten the definitions of good writing and careful reading that have
been fostered by the technique of printing. […] The computer is restructuring
our current economy of writing. It is changing the cultural status of writing as
well as the method of producing books. It is changing the relationship of the
author to the text and of both author and text to the reader. (p. 2-3)
8153 Educ. Soc., Campinas, vol. 23, n. 81, p. 143-160, dez. 2002
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Os mecanismos de produção, reprodução e difusão da escrita
Antes da invenção da imprensa, a produção e reprodução
manuscritas dos textos condicionavam sua difusão, seu uso e, conseqüen-
temente, as práticas de escrita e de leitura: por um lado, os livros
manuscritos da Idade Média eram objetos de luxo, a que poucos tinham
acesso – Umberto Eco representa bem a relação do homem medieval
com os livros manuscritos, em O nome da rosa; por outro lado, os copistas
freqüentemente alteravam o texto, ou por erro ou por intervenção
consciente, de modo que cópias do mesmo texto raramente eram
idênticas; além disso, ao possuidor ou ao leitor do manuscrito era
garantida a possibilidade de intervir no texto, acrescentando títulos,
notas, observações pessoais, porque espaços em branco eram deixados
para essa finalidade.
Embora a invenção da imprensa, e para isso alertou Chartier
(1998, p. 7-9), não tenha representado uma transformação tão radical
como se costuma supor – “um livro manuscrito (sobretudo nos seus
últimos séculos, XIV e XV) e um livro pós-Gutemberg baseiam-se nas
mesmas estruturas fundamentais, as do códex”, a verdadeira “revolução”
tendo sido, na verdade, a descoberta deste, o códex – a “revolução” de
Gutemberg alterou profundamente as formas de produção, de
reprodução e de difusão da escrita, e, conseqüentemente, modificou
significativamente as práticas sociais e individuais de leitura e de escrita
– modificou o letramento, isto é, o estado ou condição de quem
participa de eventos em que tem papel fundamental a escrita.
A tecnologia da impressão enformou a escrita, muito mais do que o
tinham feito o rolo e o códice, em algo estável, monumental e controlado:
estável, porque o texto se torna então reproduzível em cópias sempre
idênticas; monumental porque o texto impresso, muito mais que o
manuscrito, sobrevive e persiste como um monumento a seu autor e a
seu tempo; controlado porque numerosas instâncias intervêm em sua
produção e a regulam.
Em primeiro lugar, são as tecnologias de impressão e difusão da
escrita que instauram a propriedade sobre a obra, propriedade que se
expressa concretamente no surgimento da figura do autor, em geral
difuso e não identificado anteriormente, nos livros manuscritos, e
instituem, conseqüentemente, os direitos autorais, a criminalização da
cópia e do plágio.
Em segundo lugar, são as tecnologias de impressão e difusão da
escrita que criam muitas e várias instâncias de controle do texto – de154 Educ. Soc., Campinas, vol. 23, n. 81, p. 143-160, dez. 2002
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sua escrita e de sua leitura: o texto é produto não só do autor, mas
também do editor, do diagramador, do programador visual, do
ilustrador, de todos aqueles que intervêm na produção, reprodução e
difusão de textos impressos em diferentes portadores (jornais, revistas,
livros...). Altera-se, assim, fundamentalmente, o estado ou condição
dos que escrevem e dos que lêem – o letramento na cultura do texto
impresso diferencia-se substancialmente do letramento na cultura do
texto manuscrito.
Atualmente, a cultura do texto eletrônico traz uma nova mudança
no conceito de letramento. Em certos aspectos essenciais, esta nova
cultura do texto eletrônico traz de volta características da cultura do
texto manuscrito: como o texto manuscrito, e ao contrário do texto
impresso, também o texto eletrônico não é estável, não é monumental e
é pouco controlado. Não é estável porque, tal como os copistas e os
leitores freqüentemente interferiam no texto, também os leitores de
hipertextos podem interferir neles, acrescentar, alterar, definir seus
próprios caminhos de leitura; não é monumental porque, como
conseqüência de sua não-estabilidade, o texto eletrônico é fugaz,
impermanente e mutável; é pouco controlado porque é grande a
liberdade de produção de textos na tela e é quase totalmente ausente o
controle da qualidade e conveniência do que é produzido e difundido.
Enquanto no texto impresso é grande a distância entre autor e
leitor – segunto Bolter (1991, p. 3), o autor do texto impresso é a
monumental figure (uma figura monumental) e o leitor é apenas a visitor
in the author’s cathedral (um visitante na catedral do autor) – no texto
eletrônico, a distância entre autor e leitor se reduz, porque o leitor se
torna, ele também, autor, tendo liberdade para construir, ativa e
independentemente, a estrutura e o sentido do texto. Na verdade, o
hipertexto é construído pelo leitor no ato mesmo da leitura: optando
entre várias alternativas propostas, é ele quem define o texto, sua estrutura
e seu sentido. Enquanto no texto impresso, cuja linearidade, por si só, já
impõe uma estrutura e uma seqüência, o autor procura controlar o leitor,
lançando mão de protocolos de leitura que definam os limites da
interpretação e impeçam a superinterpretação, como propõe Umberto Eco
(1995, 2001), no texto eletrônico, ao contrário, o autor será tanto mais
competente quanto mais alternativas de estruturação e seqüenciação do
texto possibilite, quanto mais opções de interpretação ofereça ao leitor.
Na verdade, o hipertexto não tem propriamente um autor; em primeiro
lugar, porque a intertextualidade, presente, no texto impresso, quase
exclusivamente por alusão, no hipertexto se materializa, na medida em155 Educ. Soc., Campinas, vol. 23, n. 81, p. 143-160, dez. 2002
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que este se constrói pela articulação de textos diversos, de diferentes
autorias – no hipertexto, não há uma autoria, mas uma multi-autoria.
Assim, o texto eletrônico exige uma reconceituação radical de autoria, de
propriedade sobre a obra, de direitos autorais (questões polêmicas que
vêm sendo amplamente discutidas, mas ainda não resolvidas), o que
tem, sem dúvida, efeitos nas práticas de leitura e de escrita.
Por outro lado, na cultura da tela, altera-se radicalmente o controle
da publicação: enquanto, na cultura impressa, editores, conselhos
editoriais decidem o que vai ser impresso, determinam os critérios de
qualidade, portanto, instituem autorias e definem o que é oferecido a
leitores, o computador possibilita a publicação e distribuição na tela de
textos que escapam à avaliação e ao controle de qualidade: qualquer um
pode colocar na rede, e para o mundo inteiro, o que quiser; por exemplo,
um artigo científico pode ser posto na rede sem o controle dos conselhos
editoriais, dos referes, e ficar disponível para qualquer um ler e decidir
individualmente sobre sua qualidade ou não.
Pode-se concluir que não é só este novo espaço de escrita que é a
tela que gera um novo letramento, para isso também contribuem os
mecanismos de produção, reprodução e difusão da escrita e da leitura.
Segundo Eco (1996), os eventos de letramento que ocorrem com a
intermediação da Internet exigem novas práticas e novas habilidades de
leitura e de escrita: “We need a new form of critical competence, an as
yet unknown art of selection and decimation of information, in short, a
new wisdow” (Precisamos de uma nova forma de competência crítica,
uma ainda desconhecida arte de seleção e eliminação de informação, em
síntese, uma nova sabedoria).
Letramentos, o plural
Recorde-se o título do primeiro tópico deste texto, Conceitos de
letramento: o plural foi posto na palavra conceitos, não na palavra
letramento, e o objetivo, naquele momento, foi discutir diferentes
perspectivas na caracterização do fenômeno, ali considerado como
fenômeno singular, referindo-se, implicitamente, a práticas de leitura e
de escrita na cultura do papel. A reflexão que a seguir se fez sobre a
escrita na cultura da tela – na cibercultura, o confronto entre tecnologias
tipográficas e digitais de escrita e seus diferenciados efeitos sobre o estado
ou condição de quem as utiliza, sugere que se pluralize a palavra
letramento e se reconheça que diferentes tecnologias de escrita criam
diferentes letramentos. Na verdade, essa necessidade de pluralização da156 Educ. Soc., Campinas, vol. 23, n. 81, p. 143-160, dez. 2002
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palavra letramento e, portanto, do fenômeno que ela designa já vem
sendo reconhecida internacionalmente,
9
para designar diferentes efeitos
cognitivos, culturais e sociais em função ora dos contextos de interação
com a palavra escrita, ora em função de variadas e múltiplas formas de
interação com o mundo – não só a palavra escrita, mas também a
comunicação visual, auditiva, espacial.
Dados os limites e objetivos deste texto, esses muitos letramentos
não são aqui discutidos; propõe-se o uso do plural letramentos para
enfatizar a idéia de que diferentes tecnologias de escrita geram diferentes
estados ou condições naqueles que fazem uso dessas tecnologias, em suas
práticas de leitura e de escrita: diferentes espaços de escrita e diferentes
mecanismos de produção, reprodução e difusão da escrita resultam em
diferentes letramentos.
Voltando ao primeiro parágrafo deste texto, o que aqui se
pretendeu foi perseguir uma mais ampla compreensão de letramento,
buscando, para além do sentido com que essa palavra e fenômeno vêm
sendo usados, limitadamente com referência apenas a práticas de leitura
e de escrita no contexto de uma cultura do papel, um novo sentido,
conseqüência do surgimento, ao lado da cultura do papel, de uma
cibercultura. A conclusão é que letramento é fenômeno plural,
historicamente e contemporaneamente: diferentes letramentos ao longo
do tempo, diferentes letramentos no nosso tempo.
Recebido e aprovado em novembro de 2002.
Notas
1. Segundo Lévy (1999, p. 17), cibercultura designa “o conjunto de técnicas (materiais e
intelectuais), de práticas, de atitudes, de modos de pensamento e de valores que se de-
senvolvem juntamente com o crescimento do ciberespaço”. Segundo o mesmo autor,
ciberespaço é “o novo meio de comunicação que surge da interconexão mundial dos com-
putadores”.
2. Na verdade, a dificuldade de formular um conceito preciso de letramento parece ser
inerente ao próprio fenômeno; a esse propósito, ver Soares (1998a).
3. Obviamente, está subjacente a esse conceito de letramento o pressuposto de que a apren-
dizagem e o exercício de práticas de leitura e escrita têm efeitos sociais, cognitivos,
discursivos sobre indivíduos e grupos, o que, reconhece-se, é uma questão polêmica,
não discutida neste texto, por ultrapassar seus limites e objetivos. Apenas convém lem-
brar que a principal objeção a esse pressuposto se fundamenta na tese de que é a
escolarização, e não a aquisição da escrita e de suas práticas sociais, que tem efeitos
cognitivos, sociais, discursivos sobre indivíduos e grupos sociais (cf. Scribner & Cole,
1981); essa objeção, porém, não invalida o pressuposto: se a escolarização tem efeitos157 Educ. Soc., Campinas, vol. 23, n. 81, p. 143-160, dez. 2002
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sociais, cognitivos, discursivos sobre os indivíduos e grupos sociais, conseqüentemente
as práticas de leitura e escrita também têm, ou mesmo sobretudo têm, já que o compo-
nente mais forte da escolarização são, sem dúvida, as práticas de leitura e de escrita.
4. O adjetivo tipográfico, neste texto, usado para qualificar leitura, escrita ou letramento,
não se refere apenas, restritamente, a textos impressos com tipos, mas a textos impressos
de modo geral, seja qual for o processo de composição – não só tipográfico, mas tam-
bém por fotocomposição, por editoração eletrônica etc. Atualmente, é com esse sentido
amplo que esse adjetivo tem sido usado.
5. Para Ong (1982, p. 6), oralidade primária é “the orality of cultures untouched by literacy”;
para Lévy (1993, p. 77): “A oralidade primária remete ao papel da palavra antes que uma
sociedade tenha adotado a escrita, a oralidade secundária está relacionada a um estatuto da
palavra que é complementar ao da escrita, tal como o conhecemos hoje. Na oralidade pri-
mária, a palavra tem como função básica a gestão da memória social, e não apenas a livre
expressão das pessoas ou a comunicação prática cotidiana. Hoje em dia, a palavra viva, as
palavras que ‘se perdem no vento’, destaca-se sobre o fundo de um imenso corpus de
textos: ‘os escritos que permanecem’. O mundo da oralidade primária, por outro lado,
situa-se antes de qualquer distinção escrito/falado.”
6. Vários autores têm discutido as características e implicações da interação on-line; já
em 1985, Meyrowitz propõe uma análise sociológica da questão: MEYROWITZ, J. No
sense of place: the impact of electronic media on social behavior. Oxford: Oxford
University Press, 1985; coletânea organizada por David Porter, apresenta textos sobre
comunidades virtuais: PORTER, D. (Ed.). Internet culture. New York and London:
Routledge, 1996; Patrick Rebollar apresenta e analisa uma nova convivência intelec-
tual mundializada, na área da literatura, trazendo de volta os “salões literários”, como
indica o título de seu livro: REBOLLAR, P. Les salons littéraires sont dans l’internet. Pa-
ris: PUF, 2002; duas obras recentes analisam a interação on-line sob a perspectiva da
linguagem: CRYSTAL, D. Language and the Internet. Cambridge: Cambridge University
Press, 2001; DEJOND, A. La cyberl@ngue française. Tournal, Belgique: La Renaissance
du Livre, 2002.
7. É preciso lembrar, porém, autores que, já antes do texto na tela, lançaram mão, no texto
no papel, de estratégias do hipertexto; pode-se citar, como exemplos: O jogo da amareli-
nha, de Cortázar, O jardim de veredas que se bifurcam, de Borges, Se numa noite de inver-
no um viajante, de Calvino.
8. “O livro impresso [...] parece estar destinado a afastar-se para a margem de nossa cultu-
ra letrada. [...] a idéia e o ideal do livro será alterado: o impresso não mais definirá a
organização e a apresentação do conhecimento, como aconteceu nos últimos cinco sécu-
los. Essa mudança da imprensa para o computador não significa o fim do letramento.
O que será perdido não é propriamente o letramento, mas o letramento da imprensa,
porque a tecnologia eletrônica oferece-nos um novo tipo de livro e novas maneiras de
escrever e de ler. A mudança para o computador tornará a escrita mais flexível, mas
também alterará as definições de escrita de boa qualidade e de leitura cuidadosa que
foram geradas pela técnica da impressão. [...] O computador está reestruturando nossa
atual economia de escrita. Está mudando o status cultural da escrita e também o método
de produção de livros. Está mudando a relação do autor com o texto e de ambos, autor e
texto, com o leitor”.
9. Por exemplo, em língua inglesa, são numerosas obras recentes que trazem, em seu pró-
prio título, a palavra no plural, como: GEE, J.P . Social linguistics and literacies. London:
Taylor & Francis, 1996; BARTON, D.; HAMILTON, M. Local literacies. London: Routledge,
1998; LANKSHEAR, C. Changing literacies. Buckingham, Philadelphia: Open University
Press, 1997; BARTON, D.; HAMILTON, M.; IVANIC, R. (Eds.) Situated literacies. London:
Routledge, 2000; GREGORY, E.; WILLIAMS, A. City literacies. London: Routledge, 2000;158 Educ. Soc., Campinas, vol. 23, n. 81, p. 143-160, dez. 2002
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COPE, B.; KALANTZIS, M. (Eds.). Multiliteracies. London: Routledge, 2000. Entre nós,
foi recentemente publicado livro que propõe o conceito de letramentos múltiplos: CA-
VALCANTE JR., F.S. Por uma escola do sujeito: o método (con)texto de letramentos múlti-
plos. Fortaleza: Edições Demócrito Rocha, 2001.
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